Lugares que um dia fizeram parte da paisagem carioca e hoje sobrevivem apenas em fotografias e na memória
Há um Rio de Janeiro que não podemos mais visitar.
Não porque esteja distante, escondido ou fechado ao público, mas porque simplesmente deixou de existir.
Prédios imponentes, igrejas centenárias, teatros, hotéis, praças, monumentos, mercados, praias e até paisagens inteiras desapareceram para dar lugar a avenidas, edifícios, túneis e novas formas de ocupar a cidade.
Alguns foram derrubados em nome do chamado progresso. Outros desapareceram durante grandes reformas urbanas. Alguns foram vítimas da expansão dos transportes e outros simplesmente perderam sua função até serem substituídos.
Mas existe algo curioso sobre esses lugares: mesmo depois de desaparecerem, eles continuam presentes.
Estão nas fotografias de Augusto Malta, Marc Ferrez, Guilherme Santos e tantos outros fotógrafos que registraram o Rio de Janeiro de outras épocas. Estão nos jornais antigos, nos livros, nas histórias contadas pelos avós e, principalmente, na memória de uma cidade que mudou inúmeras vezes de aparência.
Hoje, o Amo Rio Antigo convida você a fazer uma viagem por esse Rio que desapareceu.
São 15 lugares que já fizeram parte da paisagem carioca e que hoje só podemos conhecer através da história.
1. O Pavilhão Mourisco de Botafogo
Poucos cariocas que passam atualmente pela região de Botafogo conseguem imaginar que ali existiu uma construção de aparência oriental que se tornou um dos símbolos mais conhecidos do bairro.
Era o Pavilhão Mourisco.
O edifício estava localizado em Botafogo e tinha uma arquitetura bastante diferente do padrão das construções cariocas.
Mais do que um simples prédio, o Pavilhão tornou-se um ponto de referência da região.
Durante sua existência, teve diferentes utilizações. Entre 1934 e 1937, por exemplo, abrigou a Biblioteca Infantil do Distrito Federal, sob direção da poeta Cecília Meireles.
Depois de outras ocupações, o prédio acabou sendo demolido em 1952, durante a administração do prefeito João Carlos Vital, para permitir a construção do Túnel do Pasmado.
É difícil não imaginar como seria caminhar pela antiga orla de Botafogo e encontrar aquela construção diante da paisagem da Baía de Guanabara.
Hoje, o nome Mourisco continua presente na região, mas o edifício original pertence apenas às fotografias.

Malta, Augusto (1910 circa)
2. O Theatro Lyrico
Antes de o Theatro Municipal se tornar o grande templo da música e da ópera no Rio, outro teatro ocupava lugar de destaque na vida cultural da cidade.
Era o Theatro Lyrico.
Inaugurado em 1871 como Theatro Dom Pedro II, passou a se chamar Theatro Lyrico após a Proclamação da República.
Localizado na região do atual Largo da Carioca, o teatro chegou a ter cerca de 2.500 lugares e foi palco de importantes acontecimentos artísticos.
Sua acústica era considerada excelente e o teatro permaneceu importante mesmo depois da inauguração do Theatro Municipal.
Existe até uma curiosidade deliciosa sobre seus espectadores.
Segundo a documentação reunida pela Brasiliana Fotográfica, em dias de grandes estreias os bancos dos bondes eram forrados com flanela branca para que os passageiros não sujassem suas roupas elegantes a caminho do teatro. Por isso, os bondes ganharam o apelido popular de “bondes de ceroulas”.
O Theatro Lyrico realizou seu último evento em janeiro de 1932 e foi demolido entre 1933 e 1934.
Hoje, é difícil olhar para o Largo da Carioca e imaginar que ali existiu um dos grandes palcos do Rio Imperial e republicano.

Augusto Malta. Teatro Lírico, c. 1928. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS
3. A Igreja de São Pedro dos Clérigos
O Rio Antigo também perdeu algumas de suas mais importantes construções religiosas.
Uma das perdas mais dolorosas foi a Igreja de São Pedro dos Clérigos.
Construída no século XVIII, a igreja era considerada uma obra de grande importância para a arquitetura religiosa colonial.
Sua história estava ligada a importantes personagens da cultura brasileira.
Entre os sepultados no templo estavam o padre José Maurício Nunes Garcia, um dos mais importantes compositores brasileiros de sua época, e o poeta Manuel Inácio da Silva Alvarenga.
E existe um detalhe ainda mais impressionante.
A igreja havia sido tombada pelo antigo SPHAN, antecessor do atual IPHAN.
Mesmo assim, acabou sendo retirada da proteção patrimonial durante o Estado Novo e demolida em 1944, para permitir a abertura da Avenida Presidente Vargas.
A demolição representa um dos episódios mais emblemáticos da relação entre modernização urbana e preservação histórica no Rio de Janeiro.

Augusto Malta. Igreja São Pedro dos Clérigos
4. A Cadeia Velha
Hoje, quem visita o entorno da Praça XV pode conhecer o imponente Palácio Tiradentes.
Mas antes dele existia outra construção naquele local.
Era a chamada Cadeia Velha.
O edifício fazia parte de um conjunto que também abrigava a Casa de Câmara e outras funções administrativas e judiciais.
Sua origem remonta ao período colonial. Ao longo dos séculos, o prédio recebeu diferentes instituições, incluindo a cadeia pública, a Casa de Vereança, o Senado da Câmara, o Tribunal da Relação e a Câmara Imperial.
Foi cárcere do alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, um dos líderes da Inconfidência Mineira, nos últimos quatro dias de sua vida. Foi lá que, em 18 de abril de 1792, ouviu sua sentença, escrita por D. Maria I de Portugal (1734 – 1816): seria levado à forca pelo crime de lesa-majestade. Sua execução foi realizada no dia 21 de abril de 1792.
Em 1808, com a chegada de d. João VI (1767 – 1826) ao Brasil, a Casa de Câmara e Cadeia serviu de moradia para os empregados da corte. Os antigos prisioneiros foram transferidos para a Cadeia do Aljube, na antiga Rua do Aljube (hoje rua Acre), no bairro da Saúde. A Casa de Câmara e Cadeia passou a ser chamada de Cadeia Velha.
Em 1922, o antigo prédio foi demolido.
No mesmo local seria construído o Palácio Tiradentes, inaugurado em 1926 como sede da Câmara Federal.
Assim, quando admiramos hoje o Palácio Tiradentes, estamos olhando para uma construção que ocupa um endereço muito mais antigo do que sua própria arquitetura.
Por baixo da paisagem atual existe uma outra história.

Augusto Malta. Câmara e Cadeia Velha, 1911. Rio de Janeiro, Rj
5. O Chafariz do Largo da Carioca
Durante muito tempo, o Largo da Carioca foi marcado por um grande chafariz.
A água era uma necessidade fundamental para a população do Rio, e o chafariz fazia parte da rotina da cidade.
O chafariz que aparece em muitas fotografias antigas possuía 35 bicas, além de tanques para lavadeiras e um bebedouro para animais.
Ele foi demolido entre 1925 e 1926, durante a administração do prefeito Alaor Prata.
A justificativa estava relacionada às necessidades do trânsito e ao alargamento do Largo da Carioca.
Mas o resultado não agradou a todos.
Registros da época mostram críticas afirmando que a demolição não teria melhorado o trânsito e deixado no local uma área sem calçamento.
Hoje, o Largo da Carioca é um dos pontos mais movimentados do Centro.
Poucos imaginam que aquele espaço já foi dominado por um enorme chafariz onde a água fazia parte da vida cotidiana dos cariocas.

Marc Ferrez. Largo da Carioca, com chafariz de 35 bicas, c. 1900. Rio de Janeiro, RJ
6. O Hotel Avenida e a Galeria Cruzeiro
Poucos lugares representam tão bem a transformação do Rio moderno quanto o Hotel Avenida.
Localizado junto à Galeria Cruzeiro, na região do Largo da Carioca, o hotel era uma referência da cidade.
A Galeria Cruzeiro fazia parte da vida cotidiana do Centro e era conhecida pelo movimento de pessoas, lojas, restaurantes e bondes.
Mas, na década de 1950, a cidade estava mudando rapidamente.
A velha arquitetura começava a ser substituída por edifícios modernos.
A demolição do Hotel Avenida começou em outubro de 1957. No lugar surgiu o Edifício Avenida Central, com 34 andares e estrutura metálica. O novo prédio foi inaugurado em 1961.
A despedida da antiga Galeria Cruzeiro chegou a inspirar uma manifestação chamada “Adeus à Galeria Cruzeiro”.
Era o velho Rio dando lugar a outro.
E essa transformação seria repetida muitas vezes nas décadas seguintes.

Augusto Malta. Hotel Avenida, c. 1920. Rio de Janeiro, RJ
7. O Jockey Club da Avenida Rio Branco
Hoje associamos o Jockey Club Brasileiro principalmente ao Hipódromo da Gávea.
Mas houve uma época em que sua presença também marcava a Avenida Rio Branco.
O antigo prédio do Jockey Club, projetado pelo arquiteto Heitor de Mello, fazia parte do conjunto arquitetônico da antiga Avenida Central.
O edifício foi um dos grandes símbolos da presença do turfe na região central.
Em 1932, o Jockey Club e o Derby Club se fundiram, formando o Jockey Club Brasileiro. Os dois imóveis da Avenida Rio Branco passaram então a funcionar como sede da nova entidade.
Mas os prédios não sobreviveriam à modernização do Centro.
Na década de 1970, tanto o edifício do Jockey Club quanto o do Derby Club foram demolidos.
No lugar do conjunto antigo surgiu posteriormente um edifício de grande porte.
Mais uma vez, uma parte da arquitetura da antiga Avenida Central desapareceu.

8. O Derby Club da Avenida Rio Branco
Vizinho do Jockey Club estava o Derby Club.
Sua história também estava ligada ao início e à consolidação do turfe no Rio de Janeiro.
O segundo edifício-sede do Derby Club na Avenida Rio Branco foi inaugurado em 1916, também com projeto de Heitor de Mello.
Durante décadas, o prédio fez parte da paisagem monumental da avenida.
Imagine caminhar pela Avenida Rio Branco nas primeiras décadas do século XX.
O cenário era formado por grandes edifícios e instituições que representavam o poder econômico, político, cultural e social da capital.
Jockey Club e Derby Club estavam nesse conjunto.
Ambos, entretanto, foram demolidos na década de 1970.
Hoje, praticamente ninguém que passa pelo local consegue imaginar os dois prédios que um dia estiveram ali.

9. O Pavilhão dos Estados
O Rio de Janeiro recebeu em 1922 a Exposição Internacional do Centenário da Independência.
Entre as construções erguidas para o evento estava o Pavilhão dos Estados.
Depois da exposição, o prédio foi cedido ao Ministério da Agricultura.
Durante algum tempo, continuou integrado à paisagem da região central.
Mas, após a transferência da capital federal para Brasília, em 1960, o edifício passou por um longo período de abandono.
Na década de 1970, sua arquitetura passou a ser alvo de críticas de setores ligados ao modernismo.
O prédio acabou sendo demolido a partir de julho de 1978.
É um exemplo interessante de como uma construção pode passar, em poucas décadas, de símbolo de modernidade a edifício considerado ultrapassado.

Augusto Malta. Exposição do Centenário da Independência de 1922 – Pavilhão dos Estados
10. O mirante Chapéu de Sol, no Corcovado
Antes de o Cristo Redentor dominar o alto do Corcovado, outro mirante era uma das atrações mais conhecidas da montanha.
Era o Chapéu de Sol.
Construído em 1885, por decisão de dom Pedro II, o mirante recebeu esse nome por causa de seu formato.
Ele substituiu uma estrutura mais simples de madeira e tornou-se um dos pontos de observação preferidos dos visitantes.
O local fazia parte de uma experiência turística que também envolvia a Estrada de Ferro do Corcovado.
A linha ferroviária chegou ao alto do Corcovado em 1885 e, inicialmente movida a vapor, passou à tração elétrica em 1910.
Durante as comemorações do Centenário da Independência, em 1922, as antenas instaladas no Corcovado próximas ao Chapéu de Sol participaram de um momento pioneiro da radiodifusão brasileira.
O mirante, porém, desapareceu.
Foi totalmente removido na década de 1940, durante a administração do prefeito Henrique Dodsworth.
Hoje, quem sobe ao Corcovado conhece outra paisagem.
Mas antes do Cristo havia o Chapéu de Sol.

11. O Chopp Berrante do Passeio Público
Nem todos os lugares desaparecidos eram palácios ou grandes edifícios.
Alguns eram pequenos espaços de convivência.
Um deles era o Chopp Berrante, um bar ao ar livre que existia dentro do Passeio Público.
Segundo o relato de Charles Julius Dunlop, o local tinha um pequeno teatro onde as crianças compareciam aos domingos.
À noite, havia apresentações de cançonetistas acompanhados ao piano.
O público consumia no estabelecimento e, assim, também contribuía para o espetáculo.
Era um Rio diferente.
Um Rio em que uma tarde no Passeio Público poderia significar sentar ao ar livre, beber alguma coisa, ouvir música e assistir a uma apresentação.
O Chopp Berrante desapareceu, mas sua história é um ótimo exemplo de como os pequenos espaços também fazem parte da memória de uma cidade.

Augusto Malta. Quiosque “Chopp Berrante” no Passeio Público, década de 1900. Rio de Janeiro, RJ
12. O Convento da Ajuda
No coração da região que hoje conhecemos como Cinelândia existiu durante séculos uma construção religiosa.
Era o Convento da Ajuda.
O convento foi inaugurado em 30 de março de 1750, depois de ter sido construído para receber religiosas clarissas vindas da Bahia.
A construção atravessou o período colonial, o Império e chegou ao início do século XX.
Sobreviveu inclusive às grandes reformas urbanas promovidas por Pereira Passos.
Mas não resistiu às transformações posteriores.
O convento foi adquirido pela Brasil Railway Company e acabou demolido entre o final de 1911 e 1912.
Uma das peças que estava associada ao convento sobreviveu: o Chafariz das Saracuras, atribuído ao Mestre Valentim, foi desmontado e levado para a atual Praça General Osório, em Ipanema.
É uma lembrança concreta de que, às vezes, uma pequena parte consegue escapar do desaparecimento de um lugar inteiro.

Augusto Malta. Convento da Ajuda, Fonte das Saracuras, 26 de outubro de 1911. Rio de Janeiro, RJ
13. A Praia do Russel
É difícil imaginar o Rio de Janeiro sem algumas de suas antigas praias.
A Praia do Russel, na região da Glória, é um desses exemplos.
O nome estava ligado a João Frederico Russell, engenheiro e empresário associado às obras de saneamento do Rio no século XIX.
Durante as grandes transformações urbanas do início do século XX, parte da praia foi aterrada para a abertura da Avenida Beira-Mar.
A avenida foi inaugurada em 1906, durante a administração Pereira Passos.
Mas o desaparecimento definitivo da Praia do Russel veio décadas depois.
Com a construção do Aterro do Flamengo, na década de 1960, a praia desapareceu completamente.
Hoje, quando olhamos para aquela área da cidade, vemos jardins, avenidas e uma paisagem completamente diferente.
É difícil imaginar que o mar chegava muito mais perto de onde estamos acostumados a caminhar.

Juan Gutierrez. Praia do Russel, c. 1890. Rio de Janeiro, RJ
14. O Palace Hotel da Avenida Rio Branco
Durante as primeiras décadas do século XX, a Avenida Central, posteriormente Avenida Rio Branco, concentrava alguns dos hotéis e edifícios mais sofisticados da capital.
Entre eles estava o Palace Hotel.
O estabelecimento não era apenas um hotel.
Seus salões também receberam exposições de pintura e fotografia, transformando o local em um importante ponto de encontro da vanguarda artística carioca.
O Palace Hotel também recebeu chás, bailes, recitais, almoços, jantares e outros eventos sociais.
O estabelecimento encerrou suas atividades em 15 de setembro de 1950.
Seus bens foram leiloados e o prédio foi demolido entre 1950 e 1951.
No terreno surgiu posteriormente o Edifício Condomínio Marquês do Herval, inaugurado em 1956.
A substituição do Palace Hotel é um retrato perfeito de uma época em que o Rio deixava para trás parte de sua arquitetura e começava a abraçar uma cidade vertical e modernista.

Augusto Malta. Palace Hotel, conhecido como Hotel Guinle, c. 1921. Rio de Janeiro, RJ
15. O primeiro Palácio da Prefeitura do Rio de Janeiro
A Prefeitura do Rio de Janeiro nem sempre funcionou nos endereços que conhecemos atualmente.
Quando a Prefeitura foi criada em 1892, sua primeira sede foi instalada em um palacete situado no Campo de Santana.
O edifício permaneceu como sede da administração municipal durante aproximadamente 50 anos.
Durante esse período, o prédio testemunhou uma cidade em transformação.
O Rio passou da Monarquia para a República, sofreu grandes reformas urbanas e viu sua população e sua estrutura administrativa crescerem.
Mas a construção não resistiu às obras da Avenida Presidente Vargas.
O primeiro palácio da Prefeitura foi demolido nos anos 1940, durante as grandes intervenções que modificaram profundamente aquela região do Centro.
Hoje, praticamente nada indica que naquele ponto existiu a primeira sede da Prefeitura carioca.
E talvez seja justamente essa ausência que torne a história tão fascinante.

Marc Ferrez. Palácio da Prefeitura Municipal, c. 1890. Campo de Santana, Rio de Janeiro, RJ
O que todos esses lugares têm em comum?
À primeira vista, pode parecer que esses 15 lugares não têm muito em comum.
Um chafariz não parece ter relação com um teatro.
Uma praia parece distante da história de um hotel.
Uma igreja não parece ter nada a ver com um clube de turfe.
Mas todos eles contam a mesma história.
A história de uma cidade que nunca parou de mudar.
O Rio de Janeiro passou por sucessivas ondas de transformação urbana.
No início do século XX, as reformas de Pereira Passos mudaram radicalmente a região central.
Décadas depois, a abertura da Avenida Presidente Vargas provocou novas demolições.
A expansão dos automóveis, a construção de túneis, avenidas, viadutos e grandes edifícios continuaram modificando a paisagem.
A ideia de modernidade quase sempre vinha acompanhada da palavra “progresso”.
E, muitas vezes, progresso significava derrubar aquilo que existia antes.
Quando o progresso apagou parte da memória
É importante olhar para essas demolições sem transformar o passado em uma simples disputa entre “antigo” e “moderno”.
As cidades precisam mudar.
Novas avenidas precisam ser construídas.
Novos transportes precisam surgir.
Edifícios antigos também podem apresentar problemas estruturais ou perder sua função.
Mas a história desses 15 lugares mostra que nem sempre existiu equilíbrio entre transformação e preservação.
A Igreja de São Pedro dos Clérigos, por exemplo, havia sido tombada e mesmo assim foi demolida para a construção da Avenida Presidente Vargas.
O Palace Hotel desapareceu em meio à modernização do Centro.
O Hotel Avenida deu lugar a um edifício de 34 andares.
O Pavilhão Mourisco foi eliminado para permitir a construção do Túnel do Pasmado.
E o Pavilhão dos Estados foi demolido décadas depois de representar a modernidade da Exposição do Centenário.
Cada época considera algumas construções ultrapassadas.
E é justamente por isso que preservar fotografias, documentos e histórias se torna tão importante.
O fotógrafo que salvou um Rio que já não existe
Se hoje conseguimos conhecer boa parte desses lugares, devemos muito aos fotógrafos que registraram a cidade.
Entre os nomes mais importantes está Augusto Malta, fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio durante décadas.
Suas imagens registraram ruas, prédios, demolições, festas, trabalhadores, bondes, praias e acontecimentos cotidianos.
Marc Ferrez também deixou um conjunto extraordinário de fotografias do Rio.
Guilherme Santos registrou a cidade por meio de fotografias estereoscópicas que permitiam uma impressionante sensação de profundidade.
Essas imagens têm hoje um valor que talvez seus autores nem pudessem imaginar.
Elas não mostram apenas prédios.
Mostram uma cidade que deixou de existir.
Uma rua onde hoje existe uma avenida.
Uma praia onde hoje existe um aterro.
Um teatro onde hoje existe um estacionamento.
Um prédio onde hoje existe outro prédio.

Augusto Malta (1864 – 1957), s/d. Rio de Janeiro, RJ
O Rio Antigo ainda pode ser encontrado
Talvez o Rio desaparecido não tenha desaparecido completamente.
Ele continua escondido nos detalhes.
Uma esquina pode revelar a posição de um prédio demolido.
Uma praça pode conservar um chafariz.
Uma fotografia pode mostrar uma rua que mudou de nome.
Um prédio moderno pode ocupar exatamente o terreno onde existia um hotel centenário.
E uma história contada por alguém que viveu outra época pode devolver vida a um lugar que não existe mais.
É por isso que fotografias antigas são tão importantes.
Elas permitem que façamos uma viagem no tempo sem sair do lugar.
15 lugares, 15 histórias e uma cidade que continua mudando
O Rio de Janeiro que conhecemos hoje é apenas uma das muitas versões da cidade.
Antes dele existiram outros Rios.
Houve o Rio dos bondes.
O Rio dos grandes teatros.
O Rio das praias que desapareceram.
O Rio das igrejas coloniais.
O Rio dos hotéis luxuosos.
O Rio das exposições internacionais.
O Rio dos grandes chafarizes.
O Rio das antigas sedes administrativas.
O Rio dos clubes de turfe.
E houve um Rio em que algumas dessas construções pareciam tão permanentes que talvez ninguém imaginasse que um dia desapareceriam.
Mas desapareceram.
E é justamente por isso que precisam ser lembradas.
FAQ – PERGUNTAS FREQUENTES
P: Por que tantos lugares antigos do Rio de Janeiro desapareceram?
R: Muitos desapareceram devido a reformas urbanas, abertura de avenidas, construção de túneis, expansão do transporte, modernização do Centro e substituição de antigas construções por edifícios modernos.
P: Qual foi um dos lugares mais antigos desta lista?
R: O Convento da Ajuda, inaugurado em 1750, está entre os mais antigos. Ele foi demolido entre 1911 e 1912.
P: A Igreja de São Pedro dos Clérigos era tombada antes de ser demolida?
R: Sim. A igreja havia sido tombada pelo antigo SPHAN, mas acabou sendo retirada da proteção patrimonial durante o Estado Novo e demolida em 1944 para a abertura da Avenida Presidente Vargas.
P: A Praia do Russel ainda existe?
R: Não. Parte da praia foi aterrada no início do século XX e seu desaparecimento completo ocorreu com a construção do Aterro do Flamengo, na década de 1960.
P: Onde podemos encontrar fotografias dos lugares desaparecidos do Rio?
R: Acervos como a Brasiliana Fotográfica, a Biblioteca Nacional, o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional e o Instituto Moreira Salles preservam milhares de imagens históricas da cidade.
CONCLUSÃO
Talvez uma das maiores tristezas de quem ama o Rio Antigo seja saber que muitos dos lugares mais interessantes da cidade não podem mais ser visitados.
Não podemos entrar no Theatro Lyrico.
Não podemos beber água no antigo Chafariz do Largo da Carioca.
Não podemos caminhar pela Praia do Russel como ela existia antigamente.
Não podemos admirar o Pavilhão Mourisco em Botafogo.
Não podemos atravessar as portas do antigo Palace Hotel.
E não podemos voltar no tempo para assistir a um espetáculo em um dos teatros que desapareceram.
Mas podemos fazer algo muito importante.
Podemos lembrar.
Podemos pesquisar.
Podemos fotografar.
Podemos contar essas histórias para as novas gerações.
Porque uma cidade não é formada apenas pelos prédios que permanecem de pé.
Ela também é formada por tudo aquilo que um dia existiu.
O Rio de Janeiro mudou inúmeras vezes, mas cada transformação deixou marcas.
Algumas estão nas ruas.
Outras estão escondidas sob edifícios modernos.
E muitas sobrevivem apenas em fotografias antigas.
É justamente por isso que o passado precisa ser contado.
Porque quando conhecemos o Rio que desapareceu, passamos a olhar o Rio de hoje de uma maneira diferente.
E talvez essa seja a verdadeira missão de preservar a memória: não impedir que a cidade mude, mas impedir que ela esqueça de onde veio.
Se você ama o Rio Antigo, compartilhe este artigo. Pode ser que alguém reconheça em uma dessas histórias o lugar onde seus pais, avós ou bisavós viveram, trabalharam, passearam ou simplesmente foram felizes.
O Rio que o tempo não apagou continua vivo na memória de quem ama a cidade.





